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Real Associação da Região Autónoma da Madeira |
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Mensagem do 1º de Dezembro de 2006
Acaba de ser editado uma biografia minha, da autoria do Professor Mendo Castro Henriques intitulada " D. Duarte e a Democracia". Esta Obra aborda as minhas preocupações e actividades no campo da cultura, da solidariedade e da política, e inspira-me algumas reflexões que gostaria de compartilhar convosco. Penso que nós Portugueses, atravessamos há muito, como país, uma crise depressiva. Iludimo-nos com esperanças ingénuas, procuramos panaceias para as angústias que nos acometem e deixámo-nos embalar por vezes com a ideia de que a nossa vida será fácil, mesmo sem grande esforço. Tivemos determinadas indicações que nos deram a ilusão que estaríamos a recuperar atrasos relativos já seculares. Tanto bastou para que nos antecipássemos precipitadamente a desperdiçar rendimentos que ainda nem sequer tínhamos gerado. Hipotecámos parte do nosso futuro, que estava longe de estar assegurado, na pressa de adoptarmos padrões de vida, hábitos de consumo e regalias sociais que excediam as possibilidades ao nosso alcance. Estamos a pagar essa ilusão efémera com uma profunda e demorada crise que não se limita a ser financeira, mas é económica, social e cultural. Pior. Tomou-se numa crise de auto-confiança. Saltou-nos mesmo a dúvida sobre a capacidade de nos mantermos como país independente. Recentemente, chegámos ao ponto de sondar, em plena crise, a opinião pública sobre a hipótese de nos integrarmos na Espanha. E alguns, mais desesperados, acharam mesmo que podia ser alternativa a considerar o entregarmo-nos voluntariamente na dependência política dos nossos vizinhos, sem se lembrarem de que passamos por uma conjuntura em que eles ostentam pujança e prosperidade e nós exibimos em tudo debilidades. Não é apenas de hoje uma certa tendência para o desânimo quando as coisas não correm de feição. Os Portugueses já provaram que são capazes de resistir, de sofrer com estoicismo e de operar grandes realizações. Os Portugueses espalhados pelo mundo evidenciam virtualidades que muitas vezes aqui são omitidas e desconhecidas.
Por toda a parte
são, com frequência, tidos entre os melhores, não apenas em tarefas menos
qualificadas, mas também nas mais sofisticadas actividades. Os emigrantes
portugueses honram a portugalidade. Sobretudo não nos podemos esquecer que há boas razões para crer que, feitos os ajustamentos indispensáveis nas nossas estruturas e mentalidades, se toma possível o arranque para recuperar atrasos agravados no último século. O simples facto de estarmos, em liberdade, por determinação própria, a atravessar dolorosos sacrifícios e a passar por transes difíceis, nos deve animar para que, longe de nos perdermos em azedume derrotista, sigamos o exemplo de tantos que, entre nós pelo trabalho, pela perseverança, pela criatividade, pela seriedade, desmentem a generalização dos defeitos que nos são atribuídos. Alimentada com o nosso passado de verdadeiros criadores da primeira globalização, a nossa posição de charneira na Europa assente na lusofonia espalhada pelo Mundo, conferindo-nos vantagens que não podemos deixar aproveitar. Há muito de aventura na receita para o nosso triunfo, é certo. Mas sempre foi a sã ousadia que nos trouxe as maiores realizações. É preciso melhorar a componente cultural do ensino e demonstrar que Portugal é um país viável. O ensino da História pode contribuir muito para a nossa auto-estima se for ministrado com uma pedagogia inteligente e respeito pela verdade. Infelizmente tem servido mais como instrumento de manipulação ideológica ou simplesmente esquecido ... Em particular nas questões do Mar, Portugal tem uma oportunidade à sua escala, se apostar no conhecimento e na qualidade. Não se pode adiar mais a implantação de meios e sistemas de coordenação entre autoridades competentes que conhecem os abundantes recursos marinhos nos dois milhões de quilómetros quadrados da nossa Zona Económica Exclusiva.Por exemplo, é urgente lutar pela manutenção da Escola de Pesca da Marinha Mercante, única em Portugal e em risco de desaparecer! Quero aproveitar para saudar o Presidente Lula da Silva, convicto defensor da lusofonia, ao instaurar o dia 12 de Outubro como o " Dia da Língua Portuguesa". Não podemos ficar atrás do interesse brasileiro pela língua comum. Pessoalmente louvo aqui dois exemplos. A Biblioteca Nacional da Lisboa apresentou a exposição "Henrique Barrilaro Ruas: erudito monárquico na república". Está lá a sua actividade religiosa e política, actividade camoniana, actividade cultural - de um homem e um pensamento pouco conhecidos que marcou, com a discrição que se lhe reconhecia, mais de meio século da vida cultural nacional.
Recordo, a
propósito, o Centenário do nascimento de Agostinho da Silva, figura ímpar da
cultura luso-brasileira. Intuiu a superior vocação da cultura portuguesa e
lusófona como a de oferecer ao mundo o seu espírito fraterno e
universalista. E assim foi ele o inspirador da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa, propondo o diálogo da cultura lusófona.
Não posso também deixar de denunciar o processo de desertificação do País que se vem agravando. Para tal contribui o desequipamento do interior, o "encerramento" das aldeias, o fecho das maternidades, o empurrar da população para o litoral, o crescimento suburbano desordenado, o desaparecimento da agricultura local. Como disse em Mensagem anterior, " A destruição da memória e das culturas e a desertificação não podem ser travadas por visões sectoriais e economicistas do desenvolvimento regional, porque desconhecem a essência dos diferentes elementos vivos constituintes do território, a complexidade do seu relacionamento, a evolução das suas formas e o funcionamento dos sistemas ecológicos em que se integram." Creio que todas as falsas soluções agitadas resultam de um grande vazio cultural e ideológico. O chamado "choque tecnológico" tem-se traduzido, sobretudo, no desaparecimento da diversidade, e a diversidade é essencial à manutenção da cultura. E o vazio cultural e ideológico está sempre à espera de ser ocupado pelas boas ou pelas más doutrinas. Parece-me urgente a criação de um período de "Serviço Cívico" no qual os jovens adquirissem um sentido de responsabilidade perante a sua comunidade e o país. De certo modo iria compensar a falta que faz na formação da personalidade o antigo serviço militar colmatando assim uma lacuna, que temo, que o futuro venha a penalizar. À medida que se aproxima o Centenário do 5 de Outubro, querem alguns convencer-nos que a saudável convivência entre Portugueses, espelhada numa Constituição, é uma criação da República. Não podemos aceitar esta falsificação. O Constitucionalismo português não nasceu em 1910, nasceu com a Monarquia no séc. XIX. Assim pensam os novos historiadores, sociólogos, juristas e filósofos. Assim pensam todos os que se informam.
Foi o Estado Novo,
ou IIª República, que apagou a memória da monarquia constitucional, com o
intuito de justificar a ditadura, atribuindo ao parlamentarismo e às
liberdades públicas a origem dos males do país. A Carta Constitucional continha os princípios do Portugal contemporâneo e da modernidade política: o Estado de Direito com os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos; o direito civil codificado com a defesa do indivíduo e da propriedade, o parlamento pluripartidário, a separação dos poderes, a independência do poder judicial, o direito de voto, o respeito pela religião e finalmente, o poder moderador do rei. E essas "grandes conquistas" do séc. XIX foram prejudicadas com a queda da monarquia. Os tiros brutais do regicídio cortaram a evolução do país em direcção aos países europeus da época, assassinando o Rei e o Príncipe Real mas também deitando por terra um regime e uma representação que nos integrava na Europa desenvolvida. A Carta, longe de ser uma curiosidade morta de um passado distante, é um código fundamental da experiência histórica portuguesa. É um enunciado de princípios e de regras de validade perene. Deve inspirar-nos no tempo presente. Apesar das vicissitudes que sofreu, serviu como Lei Fundamental do País entre 1826 e 1910 e foi tida em conta na elaboração de todos os textos constitucionais subsequentes. Consagrava grandes princípios como sejam a continuidade constitucional, o Primado da Lei, a liberdade individual, a separação de poderes e a partilha da soberania. Perante a vitalidade destes grandes princípios, a Constituição de 1976 repôs o caminho para a democracia embora ainda com preconceitos ao consagrar a exclusividade republicana do regime. Mas como escrevi recentemente, em prefácio à minha biografia «necessitamos de uma revolução cultural que permita encontrar um caminho viável para o nosso futuro, um caminho respeitador da vontade nacional que seja pedagógico, que não se conforme com as decisões erradas, fruto da ignorância, prepotência, desonestidade ou demagogia dos responsáveis e por isso mesmo, um caminho para uma verdadeira e autêntica democracia».
A instituição real
é fonte de soluções neste caminho: a chefia de Estado dinástica aperfeiçoa
elementos positivos da evolução da democracia. Dom Afonso que perfaz dez
anos, está hoje aqui presente. Também eu acompanhei o meu querido Pai a
partir dessa idade, seguindo-lhe os passos e os actos com o discernimento
que então me era possível. Dele sempre recordo as palavras que uma vez
proferiu: "não sou monárquico porque sou príncipe, sou monárquico por
convicção". Transmitirei esse ensinamento aos meus filhos.
Viva Portugal! Dom Duarte de Bragança |
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